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Por que trans-aprender?

  • Foto do escritor: Mara Welferinger
    Mara Welferinger
  • 31 de jan. de 2024
  • 5 min de leitura


nuvens no céu, no mar, e com vegetaçao da praia

Por que, Como ?

 

Agir sabendo por que...

 

“Viva no instante presente somente suas perguntas. Talvez, simplesmente, vivendo-as você acabará um dia, entrando de maneira imperceptível nas respostas...”1

 

A pergunta “Por que?” é primordial.

 

A ordem na qual nós nos questionamos não é neutra. Na urgência de encontrar uma resposta, nós colocamos sempre o “como” antes do “por que” e ficamos surpresos de não encontrar soluções para os nossos problemas no mundo atual. Nossas perguntas ficam sem raízes. As soluções propostas ficam “fora do sol”.

 

Em 1986, em um Colóquio em Veneza, Basarab Nicolescu propôs que nos tornássemos pergunta2  e colocava a questão “em nome de que...? Em nome de que dizemos o que dizemos? Em nome de que fazemos o que fazemos? Em nome de que pensamos o que pensamos?

 

As descobertas científicas do século XX abalaram nossas certezas e nossa crença sobre o cosmos, a biologia, a física, o Vivente, principalmente, sobre o cérebro humano. Horizontes ignorados, até então, abriram-se e até mesmo se impuseram.

 

O desenvolvimento impressionante da tecnologia, dando-nos acesso ao micro e ao macro mundo, introduzindo a hiperespecialização, a automação e a competição excessiva, obrigaram a nos posicionar de outra maneira no mundo da economia, da política, do social, da espiritualidade.

 

Os conceitos sobre os quais se baseavam inúmeras teorias e certezas foram questionados  (objetividade, causalidade, temporalidade...), outros evoluíram e se tornaram plurais (memórias, linguagens, durações...) outros, ainda, surgiram e, provavelmente, prevalecerão em nossa visão do mundo, em nossas linguagens, em nossos atos (interface, co-determinação, interdependência, potencialização, atualização, auto-organização...)

 

A aprendizagem exige um outro olhar, um outro comportamento, uma reorganização, uma reestruturação do sistema linguístico inteiro; novas posturas corporais, a ativação de novos músculos, uma nova repartição da energia vocal e respiratória, uma ampliação do espectro acústico e auditivo, novas relações da compreensão e da expressão, do oral e do escrito. Resumindo: um novo trabalho cognitivo precisa ser feito. O corpo do aprendente está inteiramente envolvido, no espaço e na duração e é impossível ignorar sua ligação com o meio ambiente, com os Outros e consigo mesmo.

 

Por que trans-aprender?

 

O termo “trans-aprender” existiu no pensamento de Henri Desroche3. A história de nosso cérebro conta-nos uma longa história de conexão. Sendo assim, compreendemos que só é possível “trans-aprender”, ou seja, como diz Basarab Nicolescu 4, aprender através, entre e para além.

 

Através significa que é preciso ultrapassar as fronteiras, ouvir o que os cientistas têm para dizer. Questionar as neurociências, as ciências cognitivas, a abordagem sistêmica, a semântica geral. O resultado será o acompanhamento da descoberta e o acesso às percepções ainda desconhecidas; a exigência de trabalhar no contexto, para poder inserir o gesto de aprendizagem na história daquele que aprende.

 

Entre significa o espaço de ressonância. O diálogo entre o Outro e Eu é uma exigência do vivente. “Se eu pude dizer “eu” é porque alguém me disse “tu” ou “você”, diz Albert Jacquard5. Para Bin Kimura “entre” é um espaço criado, onde o eu encontro a si mesmo, encontra o Outro e o mundo6. “Entre” a realidade de cada um, um material de uma grande riqueza é elaborado e compartilhado, tornando-se o ponto de partida para a construção do “eu” aprendente, no presente, enriquecido com o ontem e o amanhã, graças aos Outros, pelos Outros e para os Outros.

 

Para além mostra que existem três razões para ultrapassar os preconceitos, o pronto-a-pensar, o pronto-a-fazer, e o pior de todos, o pronto-a-crer.

 

1)      O único limite que o potencial do Vivente conhece é o limite imposto por nossas culturas. Um potencial não atualizado é um potencial perdido para a humanidade.

 

2)     As exigências do Vivente ainda são completamente ignoradas pelos próprios interessados, ou seja, nós. Elas são da esfera reservada aos especialistas. Precisamos saber que essas exigências criam e ao mesmo tempo emergem da história do Vivente (filogênese e ontogênese). Quatro palavras-chave: conectar-se, reconhecer, auto-organizar-se, compartilhar, tecem a trama do nosso vínculo com o Vivente.

 

3)      Para ir para além das fronteiras de nossos espaço-tempo precisamos compreender que o ritmo do vivente não é linear, nem irreversível. Ele é ternário. Buscar o terceiro incluído, encontrá-lo e adotá-lo multiplica a coerência e a pertinência de nossas ações pedagógicas e cívicas. Além do contexto imediato, existem outros contextos. Nós somos obrigados a nos adaptar. Para isso é preciso aprender e ajudar a aprender a:

 

Contextualizar <=> descontextualizar <=> recontextualizar

 

A atitude transdisciplinar nos lembra que nós somos equipados para:

              

Observar <=> abstrair <=> adaptar

 

Como praticar, exercitar, viver a transdisciplinaridade?

 

A palavra “como” inclui, ao mesmo tempo, uma abordagem, ferramentas, métodos, técnicas, “saber-fazer”, capacidades cognitivas envolvidas e, muitas vezes, comportamentos que determinam como proceder.

 

A abordagem transdisciplinar, tanto no ensino de uma língua, na formação de formadores, no apoio a projetos, na escrita etc., é fiel a três palavras-chave: rigor, abertura, tolerância.

 

O rigor nasce da observância das leis da vida e do respeito pelas exigências do Vivente. O que permitiu e permite a evolução dos Viventes faz parte de uma tripla lógica:

 

1.      Uma lógica que regula as nossas relações com o meio ambiente, sendo assim, regula o equilíbrio entre o interno e o externo, entre o local e o global, entre o indivíduo e o contexto. O cumprimento desta lógica é feito em várias etapas, traduzíveis em ações educacionais adaptadas a cada área:

  • contextualizar através de um enraizamento sensorial

  • reconhecer a complexidade de qualquer situação

  • organizar essa complexidade

  • deixar emergir o sentido

 

2.      Uma lógica de adaptação que administra a necessidade que os seres vivos têm de estar conectados  aos outros, de serem responsáveis ​​e parceiros, de se envolverem, de inovarem e de entrarem em reciprocidade. No campo da aprendizagem, isto significa criar atividades de troca recíproca, de práticas coletivas, por exemplo a análise coletiva de disfunções, de uma comunidade de aprendizagem.

 

3.      Uma lógica de evolução, considerada a mais recente na história do Vivente. Ele permite administrar a relação consigo mesmo. Ao que se refere ao ser humano, esta lógica rege a sua busca de sentido7 e sua consciência de ser um ser em devir.

 

A abertura, segunda palavra-chave da transdisciplinaridade, consiste em aceitar o inesperado, o desconhecido, o imprevisível. Uma atitude particularmente eficaz no campo educacional, porque conduz diretamente à tolerância, terceira característica da abordagem transdisciplinar. A abertura à biodiversidade também é uma característica do Vivente. Aceitar as diferenças que moldaram e moldam a cada instante nossa história é colocar a pedra angular de uma ética quotidiana, educativa e cívica, baseada na ardente obrigação de atualizar o nosso potencial intelectual, ou seja, a nossa capacidade de nos conectarmos com o meio ambiente, com os Outros e com nós mesmos.

 

O que ainda falta na abordagem transdisciplinar é um referencial que permita identificar, incentivar e manter as capacidades necessárias para que, em cada disciplina, as tarefas realizadas evitem a compartimentação, a linearidade, o "fora do solo", a ausência de conexão8. Falta também desenvolver, nas nossas diferentes áreas de intervenção, a parte que cabe a cada parceiro, lá onde cada um se encontra: como ser, como proceder para construirmos juntos um mundo possível.9

 


Texto de Hélène Trocmé-Fabre adaptado e traduzido por Mara Welferinger.


1 R. M. Rilke, Lettres à un jeune poète, 1903

2 « La Science comme témoignage », (A ciência como testemunha), in La Science aux confins de la connaissance, Le Félin, 1986.

3 Henri Desroche, Un passeur de frontières (Um atravessador de fronteiras), Hommage. dir. E. Poulat et Cl. Ravelet, Le Harmattan, 1997.

4 Entrevistado no 2o filme de la série Né pour apprendre, (Nascemos para aprender) H. Trocmé-Fabre.

5 Né pour choisir(Nascemos para escolher), na série Né pour Apprendre (Nascemos para aprender), ENS Editions, Lyon.

6 Bin Kimura, L’Entre (Entre), Millon, 2000, p.6.

7 Cf. Pierre Karli, Le Cerveau et la Liberté (O cérebro e a liberdade)  O. Jacob, 1995.

8 Eu elaborei um referencial do Ofício de aprender « A Arvore do Saber-Aprender », Cf. Reinventar o Ofício de Aprender, capítulo 6.

9 Isso se chama um Caderno de Encargos.

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